21 janeiro 2017

21.01.2017 marcha das mulheres em Berlim



Diversidade, generosidade, harmonia.

Gostei de passar esta hora no meio de pessoas assim, falar com elas, ver que não estou sozinha, enternecer-me com a criatividade e o sentido de humor.
  
Ao sair, deparei-me com um pequeno memorial. Só então me lembrei do risco de atentados terroristas. Se havia ali polícias, não vi. Berlin, Du bist so wunderbar!








20 janeiro 2017

ara mateix, 75 anos depois da Conferência de Wannsee

 

"I. No dia 20 de Janeiro de 1942 em Berlim, Am Großen Wannsee, 56/58, teve lugar uma reunião sobre a solução final da questão judia, na qual participaram: "

Começa assim a acta da reunião da Conferência de Wannsee. Esta reunião tinha sido prevista para 9 de Dezembro de 1941, mas teve de ser adiada devido ao ataque japonês a Pearl Harbor e a entrada dos EUA na guerra. Já antes desse ataque os judeus tinham sido considerados o maior perigo para o mundo dos delírios nazis, em particular por estarem - alegadamente - do lado dos bolcheviques. Mas aquelas cabeças sinuosas conseguiam ir bem mais longe em termos de incoerência e construção de ficções. Poucos dias depois da entrada dos EUA na guerra, Goebbels escreveu no seu diário que Hitler tinha avisado os judeus que seriam destruídos se provocassem de novo uma guerra mundial, e que isso não era uma ameaça vã. "A guerra mundial está aí, a exterminação dos judeus tem de ser a consequência necessária. Esta questão tem de ser vista sem qualquer sentimentalismo."

Em Janeiro, Heydrich envia um convite a responsáveis de vários serviços administrativos para um encontro numa bela mansão em frente ao lago Wannsee, "uma reunião seguida de pequeno-almoço".







Era uma reunião estratégica, que tinha como objectivos deixar claro que o processo de extinção do povo judeu, já em curso, estava na mão da SS, e combinar procedimentos de modo a aumentar a eficácia da máquina. Para conquistar a boa vontade dos serviços envolvidos na "solução final", organizaram uma reunião num lugar paradisíaco, seguida de uma refeição, em vez de convocarem para uma reunião na central da SS em Berlim. O poder da máquina nazi tinha as suas limitações, e em alguns casos não era possível nem suficiente dar ordens - o regime via-se obrigado a recorrer a outros métodos para convencer alguns responsáveis do aparelho estatal da necessidade do empreendimento, e fazê-los sentir-se parte natural da máquina e responsáveis pelo seu absoluto sucesso.

Uma reunião seguida de pequeno-almoço em frente ao lago Wannsee - com papas e bolos se enganaram os tolos. O que teria sido a "solução final" se os convidados responsáveis dos serviços tivessem alegado uma gripe nesse 20 de Janeiro? Se tivessem usado o seu poder para ir metendo grãos de areia na engrenagem? Quando do horror nazi teria sido poupado ao mundo se, naquele tempo, cada pessoa decente tivesse sabido resistir em vez de desviar o olhar?

Por coincidência, hoje toma posse como presidente dos EUA um homem que já demonstrou não respeitar muitos dos valores que considerávamos básicos e incontestáveis no nosso mundo, e sentimo-nos impotentes, chocados e assustados. Tememos um retrocesso da História, sentimo-nos ameaçados pela sombra de novas e ainda mais terríveis guerras. Que estará ele a preparar contra os mais frágeis da nossa sociedade? Que será ele capaz de fazer ao nosso mundo?

Lembremos este detalhe importante da História: mesmo o poder de Hitler e da máquina do terror nazi eram limitados. O futuro não está todo na mão dos poderosos. Basta de choraminguices e medos. Ainda estamos a tempo de nos apercebermos da nossa responsabilidade e da nossa força. É hora de nos treinarmos no uso dos nossos poderes, estar atentos, resistir aos engodos, e decidir segundo a nossa consciência. "Que tudo está por fazer, e tudo é possível."

Por estes dias, impossível não lembrar "Ara Mateix", de Miquel Martí i Pol:
(a tradução para espanhol vem a seguir)

I som on som; més val saber-ho i dir-ho
i assentar els peus en terra i proclamar-nos
hereus d'un temps de dubtes i renúncies
en què els sorolls ofeguen les paraules
i amb molts miralls mig estrafem la vida.
De res no ens val l'enyor o la complanta,
ni el toc de displicent malenconia
que ens posem per jersei o per corbata
quan sortim al carrer. Tenim a penes
el que tenim i prou: l'espai d'història
concreta que ens pertoca, i un minúscul
territori per viure-la. Posem-nos
dempeus altra vegada i que se senti
la veu de tots solemnement i clara.
Cridem qui som i que tothom ho escolti.
I en acabat, que cadascú es vesteixi
com bonament li plagui, i via fora!,
que tot està per fer i tot és possible.
(...)
Convertirem el vell dolor en amor
i el llegarem, solemnes, a la història.


Ahora mismo


Mejor saber que estamos donde estamos,
fijar los pies en tierra y proclamarnos
herederos de un tiempo de renuncias
en el que el ruido ahoga las palabras
y la vida en espejos deformados.
de nada valen quejas ni añoranzas,
ni la melancolía displicente
puesta como jersey o por corbata
al salir a la calle. Poseemos
apenas el espacio de la historia
concreta que nos toca, y un minúsculo
lugar para vivirla. Nuevamente
pongámonos en pie y que nuestra voz
solemnemente y clara vuelva a oírse.
Que todos puedan escuchar quien somos.
y al final, que se vista cada uno
como bien le parezca y ¡a la calle!
que todo está por hacer y todo es posible.
(...)
Cambiamos en amor el dolor viejo
y a la historia, solemnes, lo legamos.


"empatia"

Ontem, a palavra do dia na Enciclopédia Ilustrada era "empatia". Escolhi eu, e bem me arrependi, primeiro porque devia ter escolhido "Elis" (nos 35 anos da morte da Elis Regina) e segundo pelos motivos que assim descrevi:

Nota mental: ter muito cuidadinho com as palavras que escolho.
Hoje foi #empatia, e por causa disso (sim, de certeza que foi por causa disso...) passei quatro horas terríveis, com o coração nas mãos, a sofrer por interposta pessoa e sobretudo por interposto cão.
Caso queiram saber tudo: a minha vizinha está a tomar conta do cãozinho da irmã, e deixou-o hoje aqui porque saiu para uma viagem de 4 dias.
O desgraçado do bicho, ao ver a irmã da dona ir embora sentiu que estava a ser abandonado pela segunda vez numa semana, e deitou-se na caminha dele a tremer de tristeza. Uma coisa de desfazer até o coração do menos empático. Para o animar, o Matthias levou-o ao jardim da vizinha. O bicho viu uma abertura na sebe, enfiou-se por ela e desatou a fugir a toda a brida. O Matthias foi a correr atrás dele, mas perdeu-lhe o rasto. Começámos a bater o bairro. Uma hora mais tarde, encontrei uma senhora que o tinha visto a correr como um desesperado na direcção da floresta. Fomos para a floresta, que é enorme. Não havia qualquer sinal do bicho. E estava cada vez mais frio (4 graus negativos) e mais escuro.
Voltei para casa, com o coração do tamanho de uma ervilha. Sofria com a ideia daquele cãozinho de pelo curto a passar a noite sozinho na floresta - assustadíssimo, e em risco de morrer de frio. Pensava na tristeza dos donos. Pensava no meu filho, e em como devia estar a sentir-se miseravelmente.
Telefonei à polícia, mas não havia notícia do bicho.
Estava tão desesperada que cheguei a pensar telefonar à minha sogra. O Santo António tem uma estranha empatia por ela, encontra-lhe tudo o que ela pede. O problema é que o Santo António dela é muito careiro - o Joachim uma vez teve de pagar 100 euros por um caderno do laboratório que esqueceu no avião.
Por sorte não liguei, porque o telefone tocou e era a polícia, a avisar que um carro patrulha vinha trazer o cãozinho a nossa casa. A senhora que o encontrou, disseram, passou duas horas a tentar apanhá-lo e descobrir quem era o dono, e estava muito aliviada por saber que já estava outra vez em casa. Pelo modo como a polícia me contava, fiquei com a sensação que havia uma onda de bem-querer à volta deste bicho.
Agora estou aqui como se tivesse levado uma tareia. Só vos digo que a empatia hoje me saiu do corpinho.
Amanhã é F. Se fosse eu a mandar, escolhia fleuma.


19 janeiro 2017

o eixo do mal

Por estes dias, uma amiga minha comentou que estava a resistir à tentação de fazer piadinhas sobre a aparência física do Trump. Sugeri-lhe que não o faça, lembrei o velho ditado "não lutes com um porco: vocês os dois vão acabar sujos de lama e o porco vai adorar".

Sou óptima a dar conselhos aos outros... Mas, pelo meu lado, se penso na cerimónia de tomada de posse do Trump que vai ter lugar amanhã, deparo-me com um terrível impulso de Schadenfreude. Rebbeca Ferguson é convidada para cantar na cerimónia de tomada de posse de Trump, e responde que só o fará se a canção escolhida for Strange Fruit, hihihihi, embrulha essa, Trump. A única estrela que vai cantar a solo é Jackie Evancho, uma miúda de 16 anos que se revelou no "America's got talent" a cantar "o mio babino caro". Hihihi, foi o melhor que se arranjou para cantar o hino nacional à frente do Trump, hihihi, uma miúda de 16 anos. Para o Obama, foi a Aretha Franklin. Hihihi. E o baile, hehehehe, quero ver quem arranjam para cantar no baile. Quero ver se quem canta também se comove profundamente como a Beyoncé (quem não se lembra?), imagino o casal Trump a dançar na terrível exposição daquele palco: nos antípodas da graça, do à-vontade, da harmonia, da sensualidade e da alegria do casal Obama. Quero ver, hihihihi. Por falar em casal Trump: a Melania. Hihihihi, a Melania, coitadinha da Melania, hihihihi.

Portanto, é este o gelo fino sobre o qual corro o risco de avançar: pensar mal da Melania por causa do marido dela. Desclassificar a Jackie Evancho (cuja alegria e naturalidade em tempos me enterneceram) só porque ela vai cantar o hino nacional na cerimónia de tomada de posse. Sujar o debate das ideias políticas com incursões na área do aspecto físico de uma pessoa e da sua vida privada.

"O Trump liberta o filho da puta que há em ti", dizia há tempos o Lutz Brückelmann, falando do contributo de Trump para a aceitação e até o elogio de discursos públicos à margem da decência e da humanidade, agora vistos como sinal de corajosa frontalidade. Mas a acção destruidora do fenómeno Trump vai mais longe: como descubro também em mim, faz vir à tona os piores instintos de quem se queria pessoa civilizada. Isto está a correr muito mal. Tenho de meter os travões a fundo: pensar, escrutinar os impulsos, pensar de novo.

Tempos difíceis, estes, quando me sinto desapontada comigo própria, e suspeito que aqueles com quem mais me identifico ideologicamente também não estarão muito seguros dos seus valores.

Por exemplo: será que a ausência de estrelas do mundo do espectáculo na tomada de posse do Trump é realmente sinal de protesto de cada uma delas? Ou há algumas que só não foram porque temeram ser marginalizadas ou perseguidas pela máquina da qual dependem? Será que está em curso uma espécie de controlo de "actividades antiamericanas" entre pares? Outra questão preocupante: a independência do nosso pensar. Temo o dia em que o Trump diga algo sensato, e muitos desatem a contradizer apenas por reflexo condicionado.

Corremos o risco de nos afastarmos dos nossos melhores valores de tolerância, generosidade, respeito pela liberdade alheia. Estamos cada vez mais separados uns dos outros - "deploráveis", uns; "elitistas arrogantes", os outros.

O mais perigoso eixo do mal é esse que marca a distância intransponível entre nós e os outros - e é ele o mais eficaz vector de destruição da nossa sociedade. Por muito antagonizados que estejamos, vamos ter de arranjar maneira de nos reencontrarmos e entendermos. A nossa democracia tem de ser um lugar de coexistência pacífica na diferença. E não se trata de aprender a indiferença e o cinismo, não se trata de aceitar passivamente. Trata-se do trabalho difícil e exigente de encontrar as palavras certas para o diálogo.

A Jackie Evancho, a tal miúda de 16 anos que amanhã vai cantar o hino nacional americano, pode tornar-se um símbolo desse desafio. Ela - a única artista que aceitou actuar a solo na tomada de posse do Trump - tem uma irmã mais velha que nasceu com corpo de rapaz, e se empenha na defesa da dignidade dos transexuais. Na mesma família, uma pessoa colabora com Trump e a outra é perseguida por muitos dos eleitores deste presidente. Se eles conseguem o amor, o entendimento e o respeito, nós também havemos de conseguir.


18 janeiro 2017

Human



De cada vez que vejo um bocado deste "Human" penso que o devia ver inteiro.
Mas depois pergunto-me se aguento tanto de uma vez só.
Arrisco-me a chegar ao fim do filme com uma desidratação.

já não se fazem seis graus negativos como antigamente

Diz que hoje estão seis graus negativos, mas já estive lá fora duas vezes em pijama e não reparei.
Em todo o caso, quando for à rua vou tentar não me esquecer de levar umas luvinhas.

O que não devo mesmo esquecer é virar para fora os spikes das botas. Isto de nevar, chover, nevar, chover, arrefecer e gelar tudo de novo está a transformar os passeios em pistas de patinagem involuntária.



17 janeiro 2017

podia passar o dia nisto

Fui à cozinha buscar o segundo café do dia. O sol estava a nascer
- lindo! -
por trás das copas das árvores. De modo que fui buscar a máquina fotográfica e abri a porta do terraço, que ficou com o vidro embaciado.


















Podia passar o dia todo nisto:


 
 



































 
Bem me apetecia passar o dia todo nisto, mas o Fox estava a pedir para ir ao lago. Levei a máquina fotográfica. E...

...podia passar o dia nisto:











16 janeiro 2017

os passos em volta


















Os passos em volta da camada mais fina de gelo desenharam uma fronteira no lago.
Na paisagem quase monocromática as fronteiras desenham-se com toda a nitidez. As fronteiras, e a solidão.


O lago reinventa-se ao sabor dos dias inconstantes deste inverno. Ora neva ora faz sol. Em certos dias acontece tudo - neve, chuva, sol - em mudanças repentinas de humor.
Há dias, vi os cisnes que não fugiram a este inverno a voar sobre a minha casa. Desapareceram.
  









olha para o que digo e não para o que faço (2)

A propósito do post anterior, transcrevo dois exemplos práticos de como se ataca o mensageiro em vez de debater a mensagem. Não me entendam mal: não tenho nada contra confrontar as pessoas com os seus actos (desde que sejam realmente actos delas, e não torpes insinuações nossas). Mas quando se está a falar de uma questão concreta, deve-se falar apenas dessa questão concreta. Todos ganhamos se aprendermos a debater as ideias independentemente do contexto das pessoas que as emitem.

1.
Meryl Streep faz um discurso no qual diz:
"And this instinct to humiliate, when it’s modeled by someone in the public platform, by someone powerful, it filters down into everybody’s life, because it kinda gives permission for other people to do the same thing. Disrespect invites disrespect, violence incites violence. And when the powerful use their position to bully others we all lose. O.K., go on with it.
O.K., this brings me to the press. We need the principled press to hold power to account, to call him on the carpet for every outrage. That’s why our founders enshrined the press and its freedoms in the Constitution. So I only ask the famously well-heeled Hollywood Foreign Press and all of us in our community to join me in supporting the Committee to Protect Journalists, because we’re gonna need them going forward, and they’ll need us to safeguard the truth."

No facebook escreve-se (como encontrei mencionado no mural de uma amiga - e também podia copiar para aqui inúmeros artigos em inglês que dizem mais ou menos o mesmo):

"Eu entendo perfeitamente o desabafo de Meryl Streep na entrega do seu prémio. Ela pertence a uma classe privilegiada, de milionários de Hollywood, que deve sentir bastante empatia pela classe política de Washington. Tal como estes, os primeiros existem para as pessoas, de que dependem igualmente; vivem rodeados de toda a atenção mediática e de todos os luxos e acabam por ficar igualmente alienados e distantes dessas pessoas que os alimentam. São contra muros, mas o que conhecem do Mundo é limitado pelos muros que rodeiam as suas luxuosas propriedades e pela cortina que os separa da classe económica."

"Hollywood é altamente subsidiada pelo estado, ao contrário do que muita gente pensa, que aquilo é tudo investimento privado e não sei o quê. É mais do que conhecida a proximidade dos Democratas com essa elite cheia de excentricidades, que dentro do seu pequeno mundo de mansões, iates e jactos privados, e idolatria onde quer que vão, fazem por influenciar a opinião das pessoas sempre no mesmo sentido, não conhecendo de todo a realidade dura do dia a dia dos seus próprios compatriotas. É muito fácil opinar favoravelmente ou contra algo, quando isso não nos atinge diretamente. A Meryl Streep tem direito a ter a sua opinião, mas só tenho pena que os mesmos não se tenham insurgido contra as guerras que o Obama criou, ou contra o incidente diplomático que podia ter tido consequências graves aquando da expulsão dos diplomatas russos, etc, só se interessam com "muros específicos", são muito selectivos."

"Mas o meu post era algo simples. Uma reflexão apenas, dirigida aos fofinhos ditadores do pensamento único que ficam ofendidos quando alguém ousa pensar diferente. O teu comentário leva as coisas mais longe do que pretendia sequer. É que estava a tentar ser simpático para com a velha sonsa. haha Porque ela sendo uma grande actriz, conseguiu fazer passar muito bem a imagem de querida fofinha, apenas preocupada com o bronco que venceu as eleições. Na verdade, vivemos um momento de conspiração actual fantástico. Parece que ninguém reparou por exemplo no facto de nao terem passado imagens do Pontes de Madison County na montagem da Streep, filme onde ela até foi nomeada por melhor actriz. Nao será por o seu realizador ser o Republicano Clint Eastwood, claro, que nao... Hoje em dia cala-se o que nao interessa, com uma lata que faria corar qualquer censor anterior."



2. Marisa Matias publica no facebook um post com imagens da situação desesperada dos refugiados apanhados sem abrigo num terrível inverno europeu, com este texto:
"Europa, 2017. Retrato de um inverno que vem de dentro. Fila para o pão. Sem tecto. Abandono. Repito, 2017."

Comentários no seu mural:

"Engraçado, por acaso nunca a vi a si nem a ninguem (com responsabilidade social) publicar fotos de nossos sem abrigo, na rua ao frio e à chuva e com fome!!!!! Porquê???? Não há????? Isto é para ficar bem perante o lugar que ocupa no PE ??????"

"
essa senhora com o ordenado que imagino que recebe que o troque por comida para esses"

"
Quem decide a sorte destes refugiados vive em palácios e entopem-se de comida.
Esses gravatinhas da UE deviam ser todos engaiolados, não têm vergonha na cara."




15 janeiro 2017

olha para o que digo e não para o que faço

 Um dos argumentos que mais me incomoda num debate é o que aponta a diferença entre o que uma pessoa diz e o que faz. Como se o facto de alguém agir de modo diferente daquilo que propõe bastasse para tirar valor à proposta.

Mal iria o mundo se, em vez de se orientar pelos melhores princípios, optasse por se medir pelo alcance dos gestos de quem ousa formulá-los - é a diferença entre atar o arado às estrelas ou aos cordões dos sapatos.

Não sei se as pessoas recorrem a este tipo de argumentação para impedir o debate ou se têm prazer especial em humilhar os outros. Mas sei duas coisas: argumentar assim não ajuda causa nenhuma, excepto a da cacofonia no espaço público, e ninguém está livre de ser alvo deste tipo de ataques quando apela para um mundo melhor. Por muito exemplar que seja o seu comportamento, haverá sempre maneira de virar contra si aquilo que diz. Não, ninguém está livre disso, nem sequer Jesus Cristo - sobre o qual há um certo consenso de ter sido uma pessoa realmente especial e um grande exemplo para todos.

Imagino Jesus a tentar fazer-se ouvir hoje, e o ruído das redes sociais a desvalorizar o discurso com base em insinuações e acusações sobre o seu comportamento:

Jesus: "quem nunca pecou, atire a primeira pedra" / O ruído: "o que tu queres sei eu! que tu gostas é das mulheres da laia desta, estas desavergonhadas sem moral - esta aqui, está-se mesmo a ver que logo à noite já te vai pagar em géneros, é para isso que a proteges!"
Jesus: "perdoai aos vossos inimigos" / O ruído: "ah! dessa não te lembraste tu quando te deu para arrear sem dó nem piedade nos vendedores do templo, não é?"
Jesus: "deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais..." / O ruído: "olha-me este! a gente bem desconfiava que ele andava metido com o outro, aquele Pedro, e afinal é verdade, e - está-se mesmo a ver - são pedófilos!"
Jesus: "...porque quem não for como as crianças não entrará no Reino dos Céus." / O ruído: "hades, hades. claro, um vadio inútil que anda por aí de casa em casa, a viver do esforço dos outros, não admira que tenha estas ideias tolas. vai trabalhar, malandro! arranja uma família, torna-te responsável! cai na real, ó lírico!"
Jesus: "apartai-vos de mim, malditos (...); porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes." / O ruído: "estás a falar comigo?! ao teu amiguinho, o cobrador de impostos, não vais pedir tu! ele é que tem o dinheiro todo, ele que ajude! para mais, andas para aí a armar-te que és o filho de Deus. vai pedir ao teu paizinho, ele que resolva!"

Nem Jesus se livraria de ser humilhado. Aliás: não se livrou.

Insisto: olhemos para o que as pessoas dizem e não para o que fazem. Discutamos as ideias e a justeza dos apelos e das propostas, em vez das limitações (reais ou imaginadas) da pessoa que os verbaliza.




14 janeiro 2017

passagens de ano

 

[ Post para ser lido enquanto corre esta música: ]





Em menos de duas semanas já festejei duas passagens de ano. Dois anos em quinze dias, a bem dizer: é assim que uma pessoa se põe velha...

A primeira foi no dia 31 de Dezembro, às dez da noite - meia-noite em Moscovo.
A segunda foi ontem, também às dez da noite - à hora a que em Moscovo se entrava no novo ano, pelo calendário juliano. Estas passagens de ano às dez da noite são muito convenientes para quem, como eu, gosta de se deitar cedo. O problema é que os convivas, mal se distraem, desatam a falar russo, e eu fico com cara de mal integrada. É isso, e é quando se põem a cantar as suas canções arrebatadoras - ah, a alma rrrussa! - e dá uma vontade irreprimível de acompanhar, mas só se consegue fazer la-la-la.

A festa de ontem foi no atelier de um pintor russo que vive em Berlim há décadas. Tinham-nos dito que é especial, mas confesso que não estava preparada para tanto. O monta-cargas que levava os convidados para o atelier no quarto andar tinha as paredes cobertas com papel dourado, e uma mesinha onde havia uma travessa com pão escuro e um creme de rábano delicioso, e... vodca. Sim: o primeiro copinho de vodca já cá cantava ainda antes de entrar na festa. E numa das mesas de comida havia um fontanário de vodca.






Na sala ao lado havia uma banheira antiga, daquelas com pés, a fazer de aquário de peixinhos vermelhos. E na terceira sala, sobre a mesa de bilhar, havia uma arena para uma corrida muito sui generis, como contarei a seguir (mas sugiro às pessoas mais sensíveis que fujam deste post no fim do próximo parágrafo).


O papel dourado, os candelabros kitsch, o enorme cão embalsamado que parecia guardar a mesa do caviar, a escassa iluminação sobre as paredes pintadas em vermelho escuro, a cantora de música russa cigana com uma energia contagiante, que pôs toda a gente a dançar logo à primeira canção, a força da banda de instrumentos de sopro, a extraordinária diversidade do público, a beleza e o estilo de muitos dos presentes, o à-vontade de todos: ontem fiz uma incursão na boémia berlinense, e gostei.

* os mais sensíveis não devem ler mais *

A água esgotou por volta das dez (meia-noite em Moscovo), e o vodca esgotou pouco depois. O que deve ter contribuído bastante para o sucesso da espectacular corrida de... baratas. Um clássico das festas deste pintor: as baratas correm nos corredores de uma "arena" de plástico, à qual nem sequer faltam os cartazes de publicidade dos estádios. Cada barata tem um nome, há bandeiras para os respectivos fãs brandirem durante a corrida, fazem-se apostas. Numa das paredes havia cartazes com fotografias das baratas e o título "o combate dos gigantes", ao lado de um cartaz que também anunciava outro combate de gigantes (e a corrida ao domínio do mundo inteiro), com outras baratas:




Um folheto apresentava os bichos em competição:

1. Nina
rápida, vigorosa, experiente
Este nome é todo um programa. Uma das corredoras mais velhas, mas também mais experientes que, à semelhança do seu pai, já nos proporcionou momentos espectaculares de sprint - uma corredora excitante!
Corridas: Bruxelas - Paris - Montreal

2. Pionier
excelente técnica, cheia de truques, com tendência a começar antes do tempo
Pionier está na vanguarda da técnica e da aplicação de truques para vencer. A sua técnica aprimorada surpreende a cada nova corrida, e mantém o público permanentemente em suspense.
Corridas: Detroit - Memphis - S. Petersburgo
(...)

5. Olga III
ambiciosa, em excelente condição, bom estilo
Quem não conhece a mais famosa atleta desta arena, vencedora de 26 corridas? As suas corridas são lendárias, o seu estilo inconfundível. Uma concorrente a considerar seriamente, que luta até ao último fôlego.
Corridas: Helsínquia - Detroit - Moscovo


 





Apostamos na Ural ("uma lutadora de sangue-frio, que sabe como lutar até ao último centímetro. Muito aclamada na inóspita região de que é originária, hoje vem preparada para dizer quem manda na pista da corrida.") e a palerma foi a última a largar. Se disse quem mandava  na pista, terá sido por trás, tipo "esperem por mim!" - mas provavelmente falava um dialecto qualquer lá da sua inóspita terra, que as outras não perceberam. Nenhuma esperou.

Nunca na vida imaginei que havia de assistir a uma corrida de baratas, e havia de rir tanto.
(Já contei que o vodca acabou por volta das dez da noite? E era delicioso: suave e macio.)


quem te manda a ti sapateiro...

A pedido de vários clientes (a maior alegria desta casa, nunca será demais dizê-lo) arrisquei-me a entrar na casa das máquinas deste blogue para mudar o tamanho da fonte. Eu na casa das máquinas!

Essa parte correu bem.

O problema é que a ignorância fica ainda mais atrevida depois de uma primeira experiência com sucesso. Já que estava com a mão na massa, tentei mexer também na imagem do cabeçalho, para se poder ver melhor o subtítulo (sim, que na maior alegria desta casa há um ou outro leitor com critérios exigentes). Beeeem: fartei-me de fazer asneiras. Entre as quais, perder a foto original que lá estava há mais de 10 anos.

Não desgosto do cabeçalho actual, mas agora destoa da barra lateral, muito colorida.

Quem te mandou a ti sapateiro...?

*suspiro*



ADENDA: para memória futura, a minha incursão na área das rabequices foi a imagem que se segue. Um pequeno inquérito ao público, no facebook, ajudou-me a ver a luz e a repor a normalidade da situação. Tudo como antes, as cerejas ficam constantes.
E este público continua a ser - e é cada vez mais - a maior alegria desta casa.



13 janeiro 2017

em nome de quê?

Ontem estive na prisão da Stasi em Hohenschönhausen. A visita começou com um filme sobre a história da RDA e daquela que era a pior prisão da Stasi.
No pátio, em frente à maquete que mostra a área de acesso reservado (na foto, a área em branco), no centro da qual se encontra a prisão (cinzento), e as casas à volta (cinza), contam-nos que os guardas da prisão viviam nessas casas, e ainda vivem. E depois, como se não fosse nada, acrescentam: "mas entretanto já se habituaram ao facto de haver antigos prisioneiros a fazer as visitas guiadas, e já não vêm cá fazer distúrbios".



Nos mapas da RDA, esta zona estava marcada como terrenos baldios. E de certo modo continua a sê-lo, como pude verificar após a visita, quando procurava a casa Lemke, de Mies van der Rohe, que é nesse bairro. Enganei-me ao perguntar a direcção do museu a uma senhora que estava a entrar em casa: em vez de perguntar pela Oberssestraße, a rua da famosa casa do arquitecto, disse Genslerstraße, que é a rua da prisão. Estávamos a 300 metros do local, a senhora reconheceu perfeitamente o nome, mas não conseguiu dizer-me onde era.

Passámos da maquete do pátio para o edifício onde os soviéticos instalaram o primeiro campo prisional, no fim da guerra. Era na cave de uma antiga cozinha industrial, um sítio insalubre, húmido e sem janelas, a que chamam "o submarino". Os prisioneiros - desde os suspeitos de serem nazis aos que se opunham ao regime comunista - passavam semanas amontoados em quartos sem ventilação, com um balde a fazer de sanita e um estrado de madeira com palha onde dormiam na posição obrigatória: de costas, com as mãos em cima da barriga. A luz não se apagava nunca, e se um prisioneiro não estava a dormir na posição certa os guardas gritavam e batiam nas portas de modo a acordar todos os prisioneiros. Os interrogatórios eram feitos durante a noite - a tortura do sono era uma constante para todos.







As celas solitárias eram minúsculas, e o catre de madeira era demasiado curto para uma pessoa poder esticar as pernas. Outras celas tinham o chão elevado na zona da porta, para permanecerem inundadas. Num canto da cave instalaram as celas especiais para "acalmar" os prisioneiros. Com paredes almofadadas, e mais nada. Nem balde. Metiam ali os prisioneiros, fechavam a porta, apagavam a luz.

Contaram-nos a história de alguns dos prisioneiros da Stasi. A mais nova, Erika Riemann, foi presa aos 14 anos por ter pintado com o seu bâton os bigodes imponentes na fotografia de um figurão que estava na cantina da sua escola. Era o Estaline. Foi condenada por actividades anti-soviéticas, passou oito anos na prisão - nomeadamente no terrível campo nazi de Sachsenhausen, reaberto pelos russos, onde chegou a ser metida num duche com a informação de que ia ser gaseada. E quase se podia dizer que, apesar de tudo, teve sorte: se tivessem considerado que era sabotagem, não se livrava da pena de morte.
Outros prisioneiros eram obrigados a ficar sentados em determinadas cadeiras por longos períodos, sem motivo aparente. Alguns deles morreram com cancros raros - e depois da queda do muro descobriram que a Stasi tinha estranhos aparelhos de raio X por trás de paredes de papelão. 

O antigo prisioneiro que conduziu o meu grupo pelos corredores de terrível memória chama-se Mario Thom, e foi preso aos 17 anos por tentativa de fuga. Fala com vivacidade e raiva, conta a sua própria história com humor, solta suspiros fundos de desalento e frustração. Em certos momentos faz-nos rir, noutros - quando imita a violência e a perfídia dos agentes da Stasi - faz-nos estremecer de medo e repúdio. No final, perguntei-lhe como é que aguenta percorrer quotidianamente esses traumas. Respondeu que pede dispensa por uns dias, quando sente que começa a chegar ao seu limite.

A visita durou noventa minutos. Eu tentava ouvir e fixar tudo, e ao mesmo tempo fotografar à pressa.
Aqui deixo algumas imagens, e as histórias como o Mario Thom foi contando e eu lembro:  





Esta era uma das carrinhas que levava os "inimigos do Estado" para a prisão. Era um veículo comercial bastante comum nas ruas da RDA. Para disfarçar, a Stasi pintava o nome de um negócio qualquer, "Frutas" ou "Limpeza a seco". Lá dentro havia 5 compartimentos minúsculos e sem janelas para os prisioneiros, que eram levados por rotas sinuosas para perderem completamente a orientação. O carro entrava numa garagem profusamente iluminada, os capturados passavam repentinamente da escuridão absoluta para o excesso de luz, e eram conduzidos pelos corredores aos pontapés, por guardas a quem tinham dito que se tratava de terríveis inimigos do povo. Os próprios guardas estavam sob vigilância, e qualquer cedência de humanidade seria punida.

Quando a RDA quis ser aceite pela comunidade internacional, acabaram as torturas físicas. Em compensação, refinaram a tortura psicológica. Em Potsdam podia-se estudar "psicologia operativa" - aprender maneiras de dominar, manipular, quebrar uma pessoa.
"Essa gente ainda anda por aí, fazem carreiras de sucesso como advogados, por exemplo.", dizia o Mario, com um dos seus suspiros de profunda frustração. Antes tinha falado dos tantos responsáveis da Stasi que continuaram a sua vida placidamente, como anteriormente tinha acontecido com os nazis. "Andam entre nós, e fartam-se de ganhar dinheiro. O dinheiro fala com o dinheiro. Não temos hipótese."
Falava-nos no pátio de roseiras, que nenhum prisioneiro político da RDA podia ver, mas onde Mielke pôde passear durante o período de prisão preventiva que lá passou. Erich Mielke era o chefe da Stasi, e foi o último prisioneiro da sua própria prisão.

O edifício prisional que os próprios presos políticos construíram tinha celas solitárias, com janelas de tijolos de vidro para os prisioneiros não verem o exterior. Havia algumas celas duplas, para meter junto ao prisioneiro um agente da Stasi que tentava ganhar a sua confiança. Um fio eléctrico com inúmeras emendas estendia-se ao longo dos corredores. Era um sistema muito simples de alerta: se um soldado puxasse o fio, a ligação soltava-se e quebrava a corrente. Em menos de vinte segundos o corredor enchia-se de polícias que ajudavam o colega em apuros, e levavam o prisioneiro para um lugar onde se "acalmaria".





 

A prisão tinha horários e regulamentos rígidos. Os prisioneiros levantavam-se sempre à mesma hora, e ficavam obrigados a ficar sentados no banco até à hora de ir dormir. Nada de passeios, nada de livros ou papel para escrever. Nada de nada. Isolamento total. Quando as luzes se apagavam, era o sinal de que se deviam deitar.
Durante a noite, de 10 em 10 minutos um soldado vinha verificar se estava tudo bem. Abria a janela, acendia a luz. Caso o prisioneiro não estivesse a dormir como devia
- aqui o Mario deu um pontapé violento no ferrolho mais baixo da porta, gritou "PONHA-SE NA POSIÇÃO REGULAMENTAR!", deu um murro na porta, e fechou a janela com todo o estrondo do metal -
todo o corredor era acordado com a barulheira.
Junto a cada porta havia vários interruptores: para as luzes dentro da cela, e para accionar o autoclismo, de modo a impedir que os prisioneiros contactassem uns com os outros pelos canos.
Havia outro método de contactar os vizinhos: batendo com os nós dos dedos na parede. Um toque, A, dois toques, B. Uma conversa inteira a contar batidas. Às vezes os prisioneiros não se davam conta de que tinham levado o amigo da cela ao lado, e o novo ocupante era um agente da Stasi.



Quando levavam um prisioneiro pelo corredor, acendiam-se candeeiros vermelhos, para avisar que todos os outros deviam permanecer fechados. Os prisioneiros não deviam ter contacto com outros seres humanos. "Os polícias não contavam propriamente como seres humanos", dizia o Mario. "Se acontecia de estar no corredor quando passava outro prisioneiro, obrigavam-me a virar para a parede e a olhar em frente. Mas eu era curioso, arranjava sempre maneira de espreitar. Hehehehe. O pior era quando depois me acalmavam."


Na sala de identificação dos prisioneiros tiravam fotografias, tiravam as medidas do corpo e revistavam o corpo nu. "Com uma luva de borracha", acrescentou o Mario, para ter a certeza que nós percebíamos mesmo. A princípio só havia polícias homens, e eram eles que revistavam as mulheres. Nenhuma das que passou por isso conseguiu até hoje superar e esquecer. Claro que ninguém tinha nada escondido - eram capturados à traição, não contavam ir parar àquela casa. Era simplesmente parte da tortura e da técnica para quebrar as pessoas.

[ Uma das salas de interrogatório intrigou-me, porque tinha o quadro de um palácio sobre a janela para a divisão onde se encontrava o prisioneiro. Não apenas o toque kitsch no coração do terror, mas também a imagem escolhida. Não esperava encontrar num edifício da Stasi imagens de um edifício como tantos que a RDA destruiu por motivos ideológicos. ]







Numa sala de interrogatórios, o Mario Thom sentou-se no lugar do polícia, apontou o banco junto à parede onde o prisioneiro tinha de se sentar, falou das lágrimas irreprimíveis quando, ao fim de muitos interrogatórios, o prisioneiro era convidado a sentar-se na cadeira à mesa. Ser tratado como pessoa, após semanas ou meses de isolamento e humilhações! Alguns não aguentavam, e desfaziam-se nesse preciso momento.



Foi nesta sala que Mario Thom contou a sua história. Falou das incongruências do sistema, que desde sempre o tinham incomodado. Os pais, músicos famosos, podiam sair do país, mas ele não. Na escola, diziam-lhe coisas que não faziam sentido. Proibiam-no de dizer "muro", porque era "a barreira de protecção anti-imperialista". Mas ele morava perto do Checkpoint Charlie, e não percebia como havia tantos imperialistas a entrar na RDA, e ninguém da RDA a sair. Desde cedo, na escola primária, eram obrigados a entrar nas organizações do partido, e a comportar-se com aprumo militar. Nas aulas de desporto treinavam o lançamento de objectos com granadas de mão. No liceu, os Kiss - a sua banda favorita - eram proibidos. Por causa do "SS" no nome. Ele protestava, rezingava, perguntava. Não se dava por satisfeito com as respostas que recebia. Aos catorze anos foi metido num internato para jovens com problemas de socialização. Mais tarde, fez parte do grupo que mais contribui para encher as prisões da RDA: os que tentavam fugir. Acrescentou que o segundo grupo maior de prisioneiros eram os "associais" - os que se recusavam a trabalhar. Na RDA, o trabalho era um direito e um dever.
Ele queria trabalhar. Mas era como músico, como baterista. Não o deixavam, porque para isso tinha de ter um curso superior, e para ter um curso superior tinha de fazer 3 anos de tropa. Logo ele, que era mais tipo "imagina que há guerra e nenhum soldado comparece". Teve de se sujeitar ao trabalho que lhe arranjaram. Infelizmente, o único que "estava disponível" era numa cervejaria. Logo ele, que detestava essa bebida, e foi sujeito a provas iniciáticas como beber um balde de cerveja logo pela manhã.
Aos dezassete anos, durante uma discussão familiar, o pai usou a frase típica "enquanto tiveres os pés debaixo da minha mesa, obedeces!" Ele levantou-se, e saiu de casa. Primeiro foi até Rostock, no Mar Báltico, mas a mãe do amigo a quem pediu ajuda recambiou-o para Berlim. No comboio, decidiu ir para Praga, para casa da avó checa. Chegado a Praga, ocorreu-lhe a brilhante ideia de continuar caminho, e tentar escapar pela Hungria. Tudo estava a correr bem, até que chegou à fronteira da Hungria. Era o Danúbio. Como é possível ser tão palerma que se nem se olha para um mapa antes de tentar fugir do bloco de Leste?, perguntava-nos o Mario, a rir. Foi avançando ao longo do rio, na esperança de que em algum momento as margens se aproximassem, mas elas ficavam cada vez mais afastadas. Às dez da noite escondeu o saco algures, e atirou-se vestido à água. Era Outubro, mas nem reparou no frio. Daí a nada apareceu um barco da polícia, com um holofote giratório. De cada vez que a luz chegava perto dele, mergulhava. Parecia um filme. Conseguiu chegar ileso à outra margem. Ao sair da água sentiu o frio em toda a sua crueldade. Durante meia hora foi rastejando num terreno pantanoso, até encontrar as primeiras casas, e carros com matrículas diferentes das que conhecia da RDA e da Checoslováquia. Tocou a uma campainha para pedir ajuda. Um homem abriu a porta, deixou-o entrar, indicou-lhe a casa de banho. Ainda nem tinha começado a despir-se, já estava a ser levado por polícias húngaros. Tanto azar tivera, que fora pedir ajuda a um responsável da fronteira. Pouco depois, na esquadra, ao ver o respeitinho com que os húngaros tratavam a polícia alemã, e a arrogância com que estes davam ordens, sentiu-se numa cena do período nazi. Pareciam soldados da SS numa zona ocupada pelos alemães. 
Em menos de nada estava num avião sem janelas a caminho da RDA, e a ser recebido efusivamente por um interrogador bem-disposto e afectuoso.
- Então, meu rapaz, que foi isso? Quando planeaste a fuga?
- No comboio, a caminho da fronteira da Hungria.
- Quem sabia dos teus planos?
- Ninguém! Nem eu. Afinal de contas, não tinha planos.
- Tens conhecidos no Oeste?
A conversa foi correndo de forma aprazível, até que o polícia lhe falou das vantagens de viver na RDA, e da sua ingratidão por querer virar costas a tudo isso, e ele perguntou o que queria dizer exactamente a frase "liberdade de movimentos".
- Qual é a dúvida? Os cidadãos têm toda a liberdade de movimentos dentro das fronteiras do país.
- E porque é que não nos deixam sair?
Nesse momento, o Mario, que nos contava tudo isto sentado na cadeira do polícia, deu um salto para a frente, e encostou a sua cara de furia diabólica à cara de uma das visitantes, sentada no banco do interrogado:
- PENSAS QUE BRINCAS COMIGO? OLHA QUE TE POSSO TRATAR DE FORMA BEM DIFERENTE! ATÉ AGORA, CONSEGUIMOS QUEBRAR TODOS OS QUE PASSARAM POR AQUI!
Nem todos, explicou-lhe mais tarde outro prisioneiro. E tu vais-te safar. Com a tua idade, no máximo dão-te ano e meio.
Ano e meio!, comentava o Mario para nós, com um sorriso. Naquela idade, ano e meio era uma eternidade!
Ficou seis meses. Compraram-no. Os pais pediram ajuda ao Vogel, o famoso advogado que tratava desses casos com a RFA. Um dia, disseram-lhe que ia falar com o seu advogado, e levaram-no da cela para um encontro. Não trocaram uma única palavra. O Vogel disse ao polícia "é este", e assinou uns papéis. Uns dias depois estava em Berlim ocidental.
"Parece que valho 90.000..." - sorriu para nós, deu umas palmadinhas no próprio ombro, e soltou um dos seus suspiros fundos.
"Ninguém devia ser comprado, e muito menos vendido."





A visita continuou para o comboio de prisioneiros e a "jaula do tigre". Era o pátio onde permitiam aos prisioneiros apanhar um pouco de ar. Um pátio que já nos parecia minúsculo, e que na verdade eram dois. No chão, via-se a marca da parede que lá existira. Os prisioneiros eram obrigados a andar em círculo, e a manter uma distância de um metro da parede. O que implicava que andavam simplesmente à volta do escoadouro de água no centro do cubículo.
Em princípio, tinham direito a 30 minutos por dia. Mas variava: nos dias de sol podiam ser só 10 minutos, e nos de mau tempo podia perfeitamente ser mais de uma hora. Com aquelas pantufas de pano que víramos nos quartos, uma hora à chuva e à neve.

Ao fundo do pátio entre os edifícios prisionais vi um prédio alto. Lembrei-me do Jorge Semprun, que após a libertação de Buchenwald entrou na casa de uma aldeia próxima. Pediu para ir à sala, parou à janela a olhar para o campo de concentração onde tanto sofrera, e a velhinha comentou "é uma paisagem bonita, não acha?"
Os prédios ao fundo do pátio não eram de apartamentos de velhinhas teimosamente inocentes. Naquele, verde, faziam os aparelhos de escuta que a Stasi espalhava pelas casas dos suspeitos.
Perto desse ficava o arquivo da SS, que membros da Stasi estudavam com toda a atenção - para aprender métodos, dizia o Mario. E ao lado eram as oficinas onde se faziam os passaportes falsos que permitiam aos terroristas do Baader-Meinhof/RAF escapar.





No final da visita o Mario falou-nos da exposição, e da livraria do memorial, onde "podemos encontrar livros sobre o passado da Angela Merkel na RDA". 

Era tarde, não vi um nem outro. Mas quero voltar à prisão de Hohenschönhausen, e ouvir os relatos de outros antigos prisioneiros.