16 maio 2024

anda comigo ver os aviões...

 

A ver a discussão que por aqui vai sobre o nome do novo-aeroporto-que-há-de-vir, e a pensar que se podia fazer um concurso nacional para toda a gente votar. Era um bom exercício até ao 10 de Junho: que português ou portuguesa se ergue acima do seu tempo e levanta o nosso olhar?

Mas logo a seguir caio na real: os nomes ligados à Cultura, à Democracia e/ou à História iam concorrer uns com os outros, anulavam-se mutuamente e no fim ganhava outra vez Salazar!

Ou então, ganhava a Rita Matias, que tem muito jeito para o tiktok.

Vá, todos caladinhos!
Luixe de Kamoixe está muito bem.


13 maio 2024

"quiromancia" (2)

 

Quantos riscos haveria nas palmas das mãos da senhora Aurora, a vizinha da minha avó, que teve 10 filhos, morreram 3? Quantos sulcos profundos tinha ela?

Nas mãos da mãe: como seria o risco do Querubim, que andei tantos anos a pensar que se chamava Curbinhe? E o do Paulo, que morreu num acidente de carro quando voltava da tropa? E o da Fernanda, que aos cinco anos já era responsável pelo bebé, o Bito? O risco do Bito estava gravado na mão da Fernanda, ou na da mãe?

E quem desenha os riscos nas nossas mãos, quem decide "tu, Fernanda"? Quem decide "tu, Helena"?

"quiromancia"


Não me falem de #quiromancia, maldita quiromancia!
Dá-se o caso de uma grande amiga da minha sogra dizer que lê as linhas da mão, e num dos aniversários da senhora se ter posto a ler o destino de toda a gente que estava à mesa. A mim, encontrou-me dois filhos na palma da mão. Essa é fácil de adivinhar, porque ela bem sabe da Christina e do Matthias. Espertinha...
Depois chegou a vez do meu marido, mas ela olhou e olhou e olhou e só lhe viu um filho.
Tudo isto à frente da minha sogra.

11 maio 2024

quase ia sendo uma notícia fantástica (para mim)

 




Quando fiz 50 anos, o Joachim prometeu-me uma viagem ali para os lados do Pólo Norte, para ver a aurora boreal. Só que nós percebemos tanto de aurora boreal como sei lá do quê. Na internet mostram alojamentos espectaculares com vidro por cima da cama para podermos assistir ao milagre no quentinho e tal, tudo caríssimo, mas ponho-me a pensar que se calhar gastamos o dinheiro e não vemos nada porque calha de irmos nos dias em que a aurora boreal deixa um recado na montra a dizer „volto já“, e nós ali. Além do mais nunca dá jeito tirar férias nessa altura, e mais isto e mais aquilo. Ainda não fomos.

O que se segue é um caso de „tenho uma notícia boa e uma notícia má, qual querem primeiro?“
De facto, é um caso de „tenho uma notícia boa, quase ia tendo uma notícia fantástica e tenho uma notícia má, qual querem primeiro?“
A boa: ontem viu-se a aurora boreal em Berlim.
A que quase ia sendo uma notícia fantástica: ontem fomos com amigos ver o pôr do sol no céu sobre Berlim, no Klunkerkranich.
A má: vimos o pôr do sol no céu sobre Berlim, acabámos a garrafa de vinho, decidimos que era hora de ir para casa... e quando chegámos a casa ficámos a saber que durante a viagem o céu sobre Berlim se enchera de magia.

Suspeito que seja o universo a dizer „Ó moça, já fui tantas vezes simpático contigo, vieram-me dizer que andava a exagerar e que até parece que tenho filhos e enteados...“
E eu: „Pronto, está bem. De facto já tive muita sorte até agora.“

(Mas hoje à noite - não contem ao universo - vou para o terraço no topo da casa e fico lá de atalaia.)

(E espero que hoje venha em verdes e azuis, porque os rosa que vi nas imagens de ontem não são assim tão interessantes. 😉 )

07 maio 2024

"polvo"

 


Ontem foi dia de se falar do polvo na Enciclopédia Ilustrada. Um tema fracturante, porque sendo um bicho tão inteligente e patati patata, e mais aquele documentário que ganhou o óscar, e assim, fica um bocadinho difícil continuar a comê-lo em boa consciência. De modo que é isto: continuo a comer, mas sinto remorsos.
Bem...
Diz Bill François, neste livrinho de histórias de encantar, que o #polvo é o ser mais inteligente do nosso mundo, e que só não é a espécie que o domina porque cada geração tem de aprender tudo do princípio, uma vez que a mãe morre mal os polvinhos saem do ovo, e portanto os órfãos não têm ninguém que faça a transmissão. De certo modo são sempre os primeiros no mundo, como Adão e Eva, mas sem acesso à árvore da sabedoria, digamos assim, porque essa já está morta e enterrada. Já está morta e enmarada. Já está morta e demolhada.
Ora bem: se fossem assim tão tão tão inteligentes, inventavam a figura da polva que fica para tia e ensina tudo aos sobrinhos. Ou que vai para freira e passa aos sobrinhos a receita para os doces conventuais e tudo o resto.
Portanto: os polvos podem ser muito inteligentes e tudo o mais que já foi dito, mas inteligente, o que se chama verdadeiramente inteligente, é a espécie que inventou as tias.
(Embrulha, polvo!)


24 abril 2024

Grândola em Berlim

 


E você, o que fez para comemorar o cinquentenário do 25 de Abril?

Eu estive nesta flashmob. Senti a alegria e a solenidade daqueles 40 portugueses que quiseram dar a Berlim um sinal da nossa festa grande.

Comovi-me com as crianças que levaram cravos pintados em cartazes, para terem a certeza de que não faltaria ali o símbolo da nossa revolução. A nossa revolução, que com esta flasmob se tornou também um pouco mais delas.

Enquanto o grupo se preparava, falei com a polícia que vinha saber o que estávamos ali a fazer, e perguntou o significado dos cravos vermelhos que todos trazíamos na mão.

("Vêm na mão, porque os que trazemos no coração não se vêem", pensei.)

Ela ficou encantada com a história de um golpe militar que ao fim de umas horas ganhou tamanha adesão popular, do derrube da ditadura (quase) sem derramamento de sangue. Contei-lhe das imagens de alegria e inocência: os cravos vermelhos na cidade, as crianças sentadas no passeio a observar com interesse o soldado estendido no chão à frente delas.

Então, começámos a cantar. E o cravo que trazemos no coração ficou ainda mais vermelho e alegre.

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A flashmob foi no domingo passado. A gravação vai para o ar às 00h20m do dia 25 de Abril. Poderão ver aqui: https://youtu.be/fEm4qirtbf8

por um triz

 


Por estes dias tenho andado a pensar que estou na cidade certa para festejar o cinquentenário do 25 de Abril: a capital do país onde quase 90% dos eleitores portugueses souberam resistir à estratégia de mentiras e ódio de um partido que bem sabemos.

É a cidade certa, mas nada de euforias, porque estes são tempos difíceis: segundo um inquérito recente, 22% dos jovens alemães querem votar na extrema-direita, porque não vêem perspectivas para si. Votam AfD, o partido daquele dirigente que choraminga por estarmos a ser demasiado severos com Hitler, o partido do deputado que recebeu dinheiro de uma fonte de propaganda russa (e queixou-se num telefonema que não devia ter vindo em notas de 200 euros, é uma maçada, muitas lojas não aceitam notas tão grandes...) e cujo cabeça de lista às eleições europeias tinha um assistente que passava à China informações sobre opositores ao regime chinês e documentos confidenciais do Parlamento Europeu. Tudo alemães de bem...

Estes jovens que têm uma vida difícil e por isso votam num partido de mentiras e ódio, de traição aos valores humanistas e de traição à pátria, lembram-me a frase conhecida dos pais de antigamente: "Estás a chorar? Espera aí que daqui a pouco vais ter motivos para chorar a sério!"


***

Mas, para já, vamos festejar o nosso "25 de Abril sempre!" com toda a alegria.

Porque, como avisa o poeta: "para sempre é sempre por um triz".

06 abril 2024

o regresso de Wladimir Kaminer


Como todos os outros, também o texto no meu post anterior tem uma história. Começou num lago em Brandeburgo, num dia primaveril. Estávamos num barquito com Wladimir Kaminer, o escritor alemão de origem russa que vive há mais de trinta anos em Berlim, e queríamos espreitar os castores no seu afã de construção. “Desde que tenho este motor eléctrico no barco, o lago tornou-se muito mais interessante, porque vou a todo o lado sem fazer barulho, os animais não se assustam”, comentou.  Os animais deviam estar a fazer a sesta, porque não vimos nenhum. Ficámos por ali a saborear o sol e a paz, e a conversar amenamente. Wladimir Kaminer tinha de escrever um texto sobre a Páscoa, a pedido de uma organização das Igrejas Evangélicas alemãs que distribui textos para publicação nos jornais das comunidades locais, e faltavam-lhe ideias. 

Num impulso, disse-lhe que me ocorriam duas ou três frases sobre o assunto, e que depois lhe enviaria. De regresso a casa, escrevi o texto do post anterior, e enviei-lho. Só muito depois me dei conta do desplante e da ousadia: que escritor aceita sem melindre que alguém lhe sugira o que escrever sobre um tema? 

Wladimir Kaminer leu, e respondeu logo, elogiando imenso o meu texto, e que merecia ser publicado em todos aqueles jornais e revistas, e que o ia enviar à organização evangélica. Estou convencida que nem lhe passou pela cabeça, ou pelo coração, sentir-se ameaçado no seu orgulho de criador e de escritor famoso. E eu, que já gostava muito do que ele escreve, fiquei a admirar ainda mais o ser humano que existe por trás dos seus livros. 

De facto, não era novidade. Já me tinha dado conta da sua humanidade dez anos antes, quando assisti a três entrevistas consecutivas que lhe fizeram por ocasião do lançamento do “Viagem a Tralalá”. Cada jornalista fazia praticamente as mesmas perguntas, mas, de cada vez, Wladimir Kaminer abria um sorriso enorme, como se tivesse estado toda a vida à espera daquele momento e por fim aparecia alguém para falar sobre o tão almejado assunto. E, de cada vez, a resposta era diferente.   

***

Conheci Wladimir Kaminer em 2011, quando estava a traduzir o “Viagem a Tralalá”. Tinha dúvidas em relação a algumas passagens do livro, que queria esclarecer com ele. Picuinhices do género “quando usa a palavra ‘bode’ como insulto num diálogo, está a pensar em russo ou em alemão? Que animal devo usar para um insulto correspondente em português?” De férias numa ilha do Mar Báltico, descobri que ele ia ter uma sessão de leitura no teatro local. Comprei bilhete, falei com a organizadora, que era também a jornalista da terra e ficou muito satisfeita por poder acrescentar mais uma frase empolgante ao seu artigo sobre o evento (“a tradutora portuguesa de Wladimir Kaminer também estava presente na sessão”), e foi assim que nos conhecemos, fizemos uma fotografia para o jornal, e eu pude esclarecer todas as dúvidas. O lançamento do “Viagem a Tralalá” foi assinalado com uma “Russendisko” épica na Pensão Amor, em Lisboa, que obrigou a fechar as portas porque o chão estava em risco de ceder com tantas pessoas a dançar ao ritmo daquelas músicas russas e ucranianas. E foi também ocasião de dar a conhecer ao casal Kaminer alguns lugares especiais de Portugal: Óbidos, onde já em 2012 brindámos com tristeza à memória dos tantos que Putin enviava para a morte; a biblioteca de Mafra e um concerto extraordinário com os quatro órgãos; Marvão e Estremoz, onde estávamos a passear quando a filha telefonou e, ao ouvir a descrição da mãe (“Dormimos numa pousada onde há uma torre toda feita de mármore, numa cidade onde até os passeios são de mármore branco!”), perguntou se os pais tinham ido parar sem querer ao País das Maravilhas. 

Mais tarde, tiveram oportunidade de conhecer outros lugares encantados de Portugal. Alguns deles fizeram o seu caminho até um livro. A feira de Barcelos, por exemplo: “um mercado do outro lado dos montes”, que aparece em “Duas ou três coisas que sei sobre a minha mulher”, onde Wladimir Kaminer conta a história dos guardanapos bordados que Olga comprou (“e foi nesse dia que uma família portuguesa se tornou milionária”), que no final de Dezembro são tirados do armário para pôr na mesa da festa de passagem de ano, olhados longa e amorosamente, e de novo guardados no armário porque são demasiado bonitos para se sujarem naquela festa cheia de excessos. Moral dessa história sobre o sentido da existência: “todos precisamos de alguém que nos dê amor.”

Da feira de Barcelos passámos à famosa Russendisko berlinense de Wladimir Kaminer, onde o meu marido e eu trabalhávamos com o prazer de voluntários: ele chegou a dar os primeiros passos como DJ, eu ficava na caixa e recebia centenas de sorrisos por noite. O ambiente era alegre e descontraído. Ao contrário de todos os outros clubes de Berlim, onde os seguranças usam e abusam do seu lugar de poder, a função dos seguranças à porta do Kaffee Burger, junto à Rosenthaler Platz, era apenas verificar se as pessoas não estavam demasiado embriagadas, a ponto de provocarem distúrbios. Os outros, todos os outros, eram bem-vindos naquele lugar profundamente democrático e livre. 

***

Doze anos mais tarde, traduzo novo livro de Wladimir Kaminer: “Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse”, editado pela Zigurate. Um livro que olha com humor e amor para nós e para as respostas que vamos encontrando perante as múltiplas crises e perplexidades do tempo em que vivemos. 

Foi um prazer enorme traduzir cada uma daquelas frases. Também foi um trabalho intenso, porque as frases de Wladimir Kaminer só aparentemente são simples. Ele serve-se da língua alemã com uma mestria que torna particularmente difícil recriar noutra língua frases igualmente curtas e tão plenas de sentidos. Um trabalho desafiante. 

As linhas que se seguem vão parecer publicidade, mas eu entendo-as como serviço público. Depois me dirão. 

O lançamento de “Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse” vai ser em Lisboa, no dia 9 de Abril, às 18:30, na Escola Alemã. Ricardo Araújo Pereira apresenta o livro. No final, para a alegria ser completa, Wladimir Kaminer vai mostrar o seu lado DJ para nos oferecer ali mesmo um pouco da famosa Russendisko do Kaffee Burger. Devido à invasão da Ucrânia, a Russendisko anda à procura de outro nome. Em Portugal, no dia 9 de Abril de 2024, será, como não podia deixar de ser, a nossa Aprildisko. 

No dia 10 de Abril, às 19:00, haverá no Goethe Institut, também em Lisboa, uma conversa de Wladimir Kaminer com Aurora Rodrigues, Irene Pimentel e Leonor Rosas sobre “O charme discreto da ditadura – o que leva as pessoas a glorificar ditadores?”
Joana Manuel será a moderadora.

É a resposta a um interesse manifestado pelo escritor, que quer aprender mais sobre a ditadura portuguesa e tentar responder à questão do misterioso poder apelativo das ditaduras e dos ditadores. Todos conhecemos o fenómeno em Portugal (“ah, se Salazar aqui estivesse...”), e Wladimir Kaminer conhece-o bem na Rússia: desde Estaline quase ter sido eleito “o melhor de nós” num concurso televisivo (que foi interrompido para impedir o facto consumado), até jovens russas que todos os anos posam para calendários eróticos que oferecem a Putin, sem que alguém as obrigue a isso, apenas porque gostam realmente do seu ditador.
  
Dada a importância deste tema, mais pertinente ainda no ano em que comemoramos o cinquentenário do 25 de Abril, e no momento político que atravessamos em toda a Europa, foi organizado um streaming com tradução simultânea, que permite assistir em todo o mundo à sessão do Goethe Institut. Mais informações aqui (em português) e aqui (em alemão).   

***

Para terminar, e a propósito da viragem à extrema-direita a que temos assistido no mundo, passo a palavra a Wladimir Kaminer: “Não podemos soçobrar no mar da loucura. Temos de manter a razão e o humor, continuar confiantes. Estamos perante „obras do diabo“, que se destruirão a si próprias. Não devemos demonizar os confusos. O Bem acaba por prevalecer, por formas que não sabemos explicar.”

 
Por formas que não sabemos explicar, diz ele. Talvez seja, afinal, a acção do tal Ser desconhecido de que falava no final do meu texto sobre aPáscoa: que apela ao melhor que há em nós, e nos convida a ir para além da nossa imperfeição humana, com vista à construção de um mundo melhor para todos.


a Páscoa do futuro

 

„O que é a Páscoa? Sei que morreu alguém – mas quem era essa pessoa?”

Quem fazia tais perguntas era um jovem inglês, finalista do liceu na Escola Europeia de uma cidade do sul da Alemanha, em finais do século XX. Depois de superar o meu próprio espanto, falei-lhe do Natal (um Deus que se faz humano), de Jesus (“oh, esse era um tipo cool, toda a gente o conhece”, comentou ele com um sorriso enorme) e por fim narrei a traição, a morte na cruz e a ressurreição. Olhou-me como se tivesse acabado de lhe contar uma história delirante. “Vocês acreditam nisso?!”, perguntou ele, e no seu rosto espelhou-se uma tolerância benevolente. 

Transmitir a alguém a fé cristã é uma tarefa muito difícil. Especialmente quando os valores e os simbolismos são transportados por uma Igreja que se revela de mãos sujas ao longo da História – e, por desgraça, também no presente. A sede de espiritualidade e transcendência continua a existir no ser humano, mas os caminhos dessa busca são cada vez mais diversos e, nomeadamente no contexto social europeu, deixaram de ser um monopólio das Igrejas. Ao mesmo tempo, a cultura e os valores mais essenciais da nossa Europa assentam no Cristianismo. Sem um conhecimento básico da tradição cristã, ninguém entenderá o essencial de muitas obras de Bach ou Da Vinci, por exemplo. E, no que diz respeito aos valores, reconhecemos a maior grandeza àqueles que agem movidos por imenso amor aos outros – o que é, afinal de contas, o essencial da mensagem de Jesus Cristo.

Num mundo onde convivem cada vez mais o ateísmo, o agnosticismo e múltiplas espiritualidades alternativas, qual será o lugar do Cristianismo e da sua interligação com a nossa cultura? Será que, em algum momento, as imagens da cultura cristã passarão a ser vistas e entendidas do mesmo modo que as da antiguidade clássica? “A Anunciação” equiparada a “Leda e o Cisne”? “O Rapto das Sabinas” ao lado de “A Matança dos Inocentes”? Será que frases como “atire a primeira pedra” e “mais facilmente passa um camelo pelo buraco de uma agulha...” serão usadas com a mesma ignorância sobre o contexto original com que hoje em dia dizemos “o dinheiro não tem cheiro” ou “in vino veritas”? 

E se outra fé vier ocupar o lugar do Cristianismo, e se sociedades futuras misturarem novos simbolismos às nossas datas maiores: quem ressuscitará no domingo de Páscoa? 

Não sei, mas estou certa de que se tratará sempre de um Ser que apela ao melhor que há em nós, e que nos convida a ir para além da nossa imperfeição humana, com vista à construção de um mundo melhor para todos. O que quer que seja que isso significa: caberá sempre a nós descobrir.  



27 março 2024

por quem os sinos dobram

 

(imagem: Maxim Shemetov - aqui)


23 março 2024

"limpar Portugal" - quadro de honra

 

De tudo um pouco: corrupção, dívidas ao Estado, falsas presenças como deputado, violência doméstica, violência na rua, calúnias... São os deputados do partido que diz que vem limpar o país. Citando Miguel Szymanski, a propósito do resultado das eleições: "Há pessoas que, de tanto se sentirem enganadas, de tanto se indignarem com as óbvias falhas do sistema e a sistemática impunidade dos seus agentes, querem agora ser burladas à grande, à séria, aos berros, à antiga portuguesa."













Em termos de deputados eleitos pelo bom povo português, é isto.
 
Em termos de militantes, figuras próximas de André Ventura e representantes do Chega a outros níveis, são "limpezas" de luxo: sequestro, extorsão, tentativas de homicídio - e até um que "limpava" muito bem as caixas das esmolas, tanto por fora como por dentro.












estes que enriquecem o nosso mundo

 


Bom dia. Bom sábado. Bom fim-de-semana. You know how I feel. Esta semana, o parlamento federal alemão foi enriquecido com uma deputada surda, Heike Heubach. Agora andam a repensar o funcionamento da casa: sinais sonoros, tradução para língua gestual, coisas assim.
Uma sociedade com espaço para todos é assim. No outro extremo estavam os nazis, que viam as pessoas com deficiência como um peso para a sociedade, que só estorvavam os outros. (Ai, esperem, acho que me confundi um bocadinho no tempo verbal. Ainda no ano passado Björn Höcke, um dos líderes mais influentes da AfD, falou nesses termos, a propósito da necessidade de "libertar" as escolas do peso que os alunos portadores de deficiência representam para elas.) Já partilhei este vídeo há alguns anos. Mas hoje ouvi-o sem som, e entrei um bocadinho na pele desses que a sociedade tem o desplante e a insensibilidade de ignorar (na menos má das hipóteses) ou considerar abertamente um estorvo (como fazem certos partidos muito em voga na actualidade). Experimentem tirar o som, e ouvir com os olhos - e com o coração aberto à novidade e à diferença.


22 março 2024

longa vida ao nosso jovem!

 

O Herman José fez 70 anos, dizem, e fico sem saber o que pensar: porque faz parte da nossa vida desde sempre, o que significa que já deve ter uns anitos, e ao mesmo tempo continua cheio de energia a criar e a fazer rir e sorrir, como um rapaz de 20 anos. Afinal, em que ficamos?
Ficamos assim: não há muitos como o Herman, capazes de nos pôr a rir não de nós e do que somos, mas a rir connosco e com as figuras que fazemos.
Difícil encontrar gargalhadas mais ternas que essas que nos provoca aquele pasteleiro "eu é mais bolos", que vai para a entrevista errada e tenta desenrascar a situação. Ou o Estebes e as suas bochechas coradas. Ou a criada da Filipa Vacondeus. E tantos outros: que nos reconciliam com as nossas idiossincrasias.
Portanto, seja lá quantos anos forem que esteja a fazer por estes dias: longa vida ao nosso jovem!

Por exemplo, neste vídeo, o Herman José a dar 10 a 0 ao Marcelo Rebelo de Sousa em termos de inteligência, de consciência democrática, de modernidade. E de humor, mas ça va sans dire.
Que pena só agora me ter lembrado disto: Herman para presidente! Já!
(o Herman não dissolvia dois parlamentos em pouco mais de um ano, não se armava em ayatollah e não impunha uma sharia católica a um país livre e laico; de brinde, ainda cantava o hino com a voz bem colocada e muito afinado, e ainda nos fazia rir uns com os outros por sermos como somos - haverá missão mais difícil e mais proveitosa para um presidente dos portugueses desempenhar? O Herman desempenhava-a com uma perna às costas.)

17 março 2024

Alemanha e Israel

Birkenau, 2014. Oil on canvas, 8 ft. 6 3/8 in. x 78 3/4 in. (260 x 200 cm).
Private Collection. © Gerhard Richter

 

Aqui a dorminhoca só reparou hoje que a Almanaque Mag já saiu em Fevereiro. Isso foi, segundo as minhas contas, duas séries de correrias antes daquelas em que ando agora metida. Em plena Berlinale. Não importa: aí está o artigo que escrevi em Novembro de 2023 sobre a Alemanha e Israel. Nasceu de uma necessidade forte que senti na altura de explicar um pouco mais sobre os motivos do comportamento da Alemanha perante os crimes terríveis que Isael estava (e continua) a cometer em Gaza. Algumas passagens já não são muito actuais. Entretanto Israel já triplicou o número de civis que matou em Gaza; os próprios políticos alemães e a população começaram a criticar mais abertamente o governo de Israel; na altura, Geert Wilders era o vencedor das eleições nos Países Baixos, e havia notícias sobre o medo sentido por muçulmanos naquele país - neste momento, já vimos que mesmo que a direita populista ganhe eleições, é possível proteger a democracia. Mesmo assim, o artigo não envelheceu tão mal como temia.


Leiam, e digam o que vos parece.

https://almanaquemag.com/alemanha-e-israel/

15 março 2024

"limpar Portugal"...


Lembram-se do João Miguel Tavares no discurso do 10 de Junho a choramingar, implorando aos políticos “dêem-nos algo em que acreditar”?

“Algo em que acreditar” é mais coisa da religião, mas, pelos vistos, João Miguel Tavares encontrou finalmente para si “o caminho, a verdade e a vida” na política. Não descansa enquanto não meter o São Mentiroso-Compulsivo no governo.

Tempos houve em que João Miguel Tavares se amofinava muito contra Sócrates, chamava-lhe mentiroso-compulsivo, acusava-o de não ter carácter. Parecia o discurso de uma pessoa com sentido de decência. Afinal, não. Agora que se tornou o profeta da nova seita do ódio e do quanto-pior-melhor, é fácil imaginá-lo a desculpar-se, parafraseando o outro: “Talvez este seja um mentiroso-compulsivo, mas é o nosso mentiroso-compulsivo.”

O milhão de portugueses que deram o seu voto ao partido cujo lema – fascista até ao tutano – é “limpar Portugal” permitiram ao menos este pequeno ganho colateral: por estes dias, é muito fácil ver onde está a imundície.

E também onde se encontra verticalidade de carácter: que Luís Montenegro não esmoreça nunca, apesar de todas as pressões, em manter o seu “não é não”.


11 março 2024

involução


Começámos por pensar no 25 de Abril como revolução.
Depois, houve quem afirmasse que era apenas evolução.
Agora, 50 anos depois: involução.

Sobre a distribuição de votos entre os partidos democráticos: como é óbvio, cada eleitor tem o direito de dizer se prefere ter mais ou menos Estado social, mais ou menos impostos para os pobres ou para os ricos, mais ou menos SNS e Segurança Social, mais ou menos privatizações, mais ou menos preocupações de cidadania na escola. A Democracia é mesmo isso.

Quanto aos que meteram 48 arruaceiros incompetentes e cínicos no Parlamento: que carácter e que valores tem essa gente que usa o seu direito de voto para destruir a Democracia e o país?


ontem

 

Ontem houve um momento comovedor na assembleia de voto do Consulado de Berlim: uma jovem portuguesa descobriu que não podia exercer ali o seu direito de voto, e começou a chorar desconsoladamente.

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Para os emigrantes portugueses, o sistema eleitoral é muito complicado. Numas eleições o voto é apenas presencial, noutras é por sistema postal excepto se as pessoas se inscreverem (atempadamente!) para voto presencial. Depois há pessoas que mudam de casa, se esquecem de informar o Consulado sobre isso, e a carta com o boletim de voto é enviada para a morada anterior. E há as que dão a nova morada para efeitos de renovação do passaporte, mas esta informação não passa automaticamente para o sistema de recenseamento eleitoral.

A informação está toda no site da CNE, mas as pessoas provavelmente confiam que "vai ficar tudo bem", e no final têm decepções enormes. 

E como se isto não fosse já muito complexo, ainda temos os correios alemães, que agora são uma sociedade anónima, e desde 2015 maioritariamente na mão de privados. O Estado português bem se esforça a enviar todas aquelas cartas com registo e aviso de recepção, mas estas, mal entram em território alemão, parece que lhes dá uma maluqueira qualquer. E como as pessoas não se dão conta de que a sua carta se extraviou ou voltou para trás, não contactam atempadamente a CNE para pedir novo envio. 

(Também houve uma pessoa que recebeu a carta em casa, mas pensou "ah, prefiro ir votar ao Consulado" - perdeu a viagem e perdeu o voto, porque a carta tinha de ter carimbo do dia anterior. E houve outra que, ao ser informada de que não podia votar porque não se tinha inscrito para o fazer, desatou a insultar a mesa e a ameaçar: "Vocês não sabem com quem se meteram!")  


09 março 2024

votar

Hoje estive no Consulado de Portugal em Berlim das oito da manhã às sete de tarde. Eu, e mais cinco pessoas:

Amanhã, lá estaremos outra vez das oito da manhã até à hora em que aparecer o último de todos os que se inscreveram para o voto presencial.

É só um exemplo do outro lado da medalha: para que os portugueses possam exercer o seu direito de voto, o Estado português gasta muitos milhões de euros em organização, papel, franquias para o voto postal, etc.
E há milhares de pessoas a oferecer generosamente o seu tempo livre para assegurar o funcionamento das mesas de voto.

Ia apelar ao voto - ao voto em partidos que não atirem o nosso país para uma deriva de ódio e autoritarismo - e de repente uma recordação feliz veio ao meu encontro: as primeiras eleições em Portugal depois do 25 de Abril.

A alegria, o entusiasmo das pessoas. A consciência da importância e da dignidade daquele acto.


06 março 2024

Berlinale 2024 - dia 2






O segundo dia do festival foi uma festa para mim: só filmes bons. Além disso, começou bonito. Um belo dia de inverno. Ao fim da tarde, a Filarmonia iluminada guiou-me o caminho enquanto atravessava o escuríssimo Tiergarten a pé, entre o terceiro e o quarto filme do dia.



4. Keyke mahboobe man - My Favourite Cake, de Maryam Moghaddam & Behtash Sanaeeha

Um filme lindo, comovente e divertido sobre uma viúva iraniana de 70 anos que decide dar-se uma nova oportunidade e ser feliz numa relação. Os seus autores, que também já trouxeram à Berlinale o "Ballad of a white cow" não estavam presentes porque o regime iraniano os impediu de sair do país.


5. Crossing, de Levan Akin

(não encontrei nenhum trailer com legendas em inglês)


O filme começa com esta informação: tanto na língua georgiana como na turca, não há género gramatical. Mesmo nos pronomes, o género é neutro. Eu a pensar: "Esta tem graça. Um país é cristão, o outro muçulmano. Aparentemente, não precisam da gramática para se entenderem quanto ao masculino e ao feminino."

Uma mulher vai da Geórgia a Istambul em busca da sobrinha transsexual. E nós vamos com ela, e fazemos com ela o percurso que leva do preconceito ao acolhimento da realidade do outro.

Um filme imprescindível.



6. Sieger Sein - Winners, de Soleen Yusef



Numa escola de Wedding, um bairro berlinense onde vivem muitas famílias de trabalhadores com baixo nível salarial e/ou imigrantes, um professor muito interessado tenta ajudar à integração de uma aluna nova, de uma família curda que fugiu à guerra da Síria, convidando-a a entrar para o clube de futebol feminino.

A realizadora, Soleen Yusef, ela própria chegada à Alemanha em criança, fugindo à guerra do Iraque, decidiu homenagear com este filme a sua família, as crianças refugiadas e os professores que a ajudaram a integrar-se na sociedade alemã e a encontrar o seu caminho.

Por trás da linguagem moderna das imagens, da personagem principal que atravessa a quarta parede para se dirigir ao público, do ritmo excelente, do humor e até do sinal da luta de classes (Wedding contra Charlottenburg, hehehe), o filme oferece um retrato empático daqueles adolescentes, com todos os seus pesos e as dificuldades pessoais que trazem para o seio da comunidade escolar.

Um filme para toda a família que vale muito a pena ver.



7. A different man, de Aaron Schimberg

Um trabalho inteligente, cheio de reviravoltas, sobre o ser, o parecer e a consciência de si próprio.

Sebastian Stan recebeu o Urso de Ouro para melhor actuação. Mas eu não conseguia tirar os olhos do Adam Pearson.